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Quarta-feira, 19 de junho de 2024

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Tiririca, o Papa e Outras Histórias

Tiririca não sabia para quê servia o deputado federal. Não sei se ele já descobriu ou não, mas fato é que está decepcionado e tornou notório na semana passada seu enfado no congresso declarando que “não dá pra fazer muita coisa”, referindo-se a função. É, ele percebeu que como palhaço consegue fazer muito mais pelas pessoas.

Quanto a Bento XVI, supus ter tido ele um aconselhamento com capitão Nascimento, quando este não se deu por achado: “-Dezesseis, pede pra sair!”. Graças à parte, renunciar e advertir renovação da igreja mundial sugere inconformidade. São cerca de seis renúncias papais em aproximadamente dois mil anos. Somos uma geração vendo um Papa largar tudo 600 anos após a última renúncia. Justo o sucessor de um Papa que literalmente se arrastou enquanto pôde e ficou lá até cair morto. Suas razões certamente são sérias e preocupantes. O que ele sabe e por que isso o impede de continuar?

Já Tiririca precisa aconselhar-se com Marquito, vereador por São Paulo, não mais experiente e não menos palhaço, porém aparenta estar mais consciente acerca do que está fazendo. Já declarou a seu colega de Brasília sua opinião: “Assessore-se melhor.” Ou seja, se você não sabe ainda o que ou como fazer, contrate alguém que saiba.

Entre Bento XVI e Tiririca a distância é desmedida, entretanto hoje ambos vivem a desilusão. Não posso falar com propriedade da Santa Sé, mas no Brasil podemos entender o desnorteamento do palhaço político no meio dos políticos palhaços. Se pensarmos no (des)preparo de inúmeras pessoas que estão vivendo a aventura política, tudo se explica. O garoto Leandro, o “L” do KLB, filho de empresário do mundo musical, caiu de guarda-chuva na assembleia paulista pela via da suplência. Antes de tomar posse a primeira promessa: não cantar na ocasião, para a felicidade dos presentes.

Falando em cantar, o “L” do KLB entra, enquanto Agnaldo Timóteo sai após 30 anos na política, deixando projetos de lei como disponibilização de transporte especial para pessoas obesas dentro dos cemitérios ou a criação do Dia de Gratidão aos Nortistas e Nordestinos. Aliás, projetos de lei estrambóticos não faltam e mês passado foi sancionado no estado de São Paulo o projeto da deputada Myrian Rios intitulado "Programa de Resgate de Valores Morais, Sociais, Éticos e Espirituais”. Ela justifica a abstração e subjetividade da lei: "Parece(?) que se desencadeou um vírus de violência, a vida ficou banalizada de repente(?). Por isso eu pensei em criar o projeto para resgatar o amor ao próximo, valores morais, de família e com isso, reduzir a violência". Parênteses nossos, não “parece”, a violência existe de verdade e não foi “de repente”, é um processo social avançando há muito tempo. Reduzir a violência apenas com leis novas e que sugerem “bons constumes” será inócuo? A própria religião, igrejas, templos e cultos não conseguem fazê-lo. Por que raios a atriz que faz papel de deputada, sozinha, reduziria a violência? Temos no Brasil um dos mais amplos e complicados emaranhados de leis do mundo - paralelamente a países como os EUA e a Inglaterra - que têm poucas leis e nem por isso novas delas surgem a cada dia. Urge ficar claro que esses pseudo-políticos votados por grande parte de eleitores ineptos torram dinheiro público valioso com seus assessores, gabinetes, verbas, viagens, funcionários, ternos, tailleurs e salários formidáveis para prestar este papelão. Eu não sei se a solução para isso seria mexer nas regras para ser eleito, mexer nas regras para ser eleitor ou ainda mexer nas duas regras. Olha aí, a gente mexendo nas leis de novo...

Enfim, Tiririca não é o único que não sabe nada e está boiando. Muitos outros ditos deputados, deputadas, vereadores e vereadoras estão na mesma situação. Mas o único sincero a declarar esta lamentável verdade é o palhaço, que por não saber nada não quer ficar. Ou mesmo por agora saber tudo como é, a exemplo do Papa Bento XVI. Fica então uma certeza: lá e cá a coisa é mais feia do que parece.


Christiane Batista é advogada e acadêmica de Letras da UFMT
christianeadv@uol.com.br

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