A Justiça Militar de Cuiabá autorizou que os policiais e agentes da Rotam Jorge Rodrigo Martins, Leandro Cardoso, Waison Alesandro e Wekcerlley Benevides de Oliveira, acusados de forjarem um confronto em que mataram uma vítima, e tentaram contra outras duas, para acobertar o assassinato do advogado Renato Nery, voltem às atividades funcionais. Na mesma ordem, o Conselho Permanente negou restabelecer o monitoramento eletrônico ao quarteto.
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Na última sexta-feira (12), os quatro passaram por audiência de instrução e julgamento, ocasião em que o juiz presidente Valter Simioni votou pelo indeferimento do pedido da defesa e do restabelecimento de outras cautelares (como monitoramento eletrônico e suspensão do porte de arma), alegando ausência de prejuízo e preclusão consumativa para o MP, respectivamente.
No entanto, o Conselho decidiu, por maioria, revogar a restrição administrativa, permitindo o retorno deles às atividades funcionais, e negar o retorno das cautelares pleiteadas pelo Ministério Público, embora outras medidas restritivas permaneçam vigentes.
Simulação no Caso Nery e grupo de extermínio
“Acabei de trocar tiro aqui”; “o cara tomou disparo no peito, e o filho da puta não morreu”; “eu acho que deve tá dando divergência em nosso depoimento"; "Ele só pensa em matar, matar, matar": relatório forense feito nos celulares dos agentes da Rotam constituiu a prova técnica necessária para o Ministério Público reforçar o pedido de prisão e oferecer denúncia contra eles.
Assinada em junho pelo promotor Henrique Pugliesi, a acusação aponta que Jorge Rodrigo Martins, Wailson Alessandro Medeiros Ramos, Wekcerlley Benevides de Oliveira e Leandro Cardoso, policiais militares da Rotam, integravam um grupo de extermínio chamado “Gol Branco”.
Foi no contexto deste grupo de WhatsApp que o relatório encontrou os diálogos em questão, os quais foram usados pelo promotor na denúncia. Vale lembrar que Leandro Cardoso e Jorge Rodrigo já são denunciados no âmbito da Operação Simulacrum, que investiga justamente um grupo de “mercenários” formados por militares.
As investigações revelaram que os policiais teriam forjado um confronto policial para ocultar a arma usada no assassinato de Nery e alterar a cena do outro crime, o que gerou contradições, indicando que se tratou de uma simulação feita para justificar a posse da pistola Glock, calibre 9mm, número de série VPL521, e fazer crer que pertenceria aos " tais criminosos" que entraram em confronto com eles.
O relatório feito no celular Xiaomi Poco X6 de Wailson demonstrou os elementos de prova cruciais para caracterização dos crimes imputados ao grupo: homicídio consumado, homicídio tentado, organização criminosa, obstrução da justiça, falsidade ideológica, abuso de autoridade e porte ilegal de arma de fogo.
Uma foto do advogado Renato Nery foi encontrada salva no dispositivo no dia 6 de julho de 2024, apenas um dia após ele ser assassinato, o que evidenciou que o grupo tinha conhecimento prévio do crime e possível envolvimento direto. Também foram encontradas pesquisas sobre a morte de Renato em 2025, demonstrando interesse continuado no caso.
Os áudios encontrados no aparelho são comprometedores. Num dos diálogos, Wailson chegou a afirmar categoricamente: "Acabei de trocar tiro aqui nega!", seguido de "Acabei de trocar tiro tá?". No dia seguinte, ele revelou detalhes técnicos sobre ferimentos causados ao interlocutor: “cara tomou um disparo na porra do peito, transfixou, deu Hemotórax que é sangue né, drenaram o sangue dele, o filho da puta não morreu!".
Em outra conversa, causou espanto no promotor a naturalidade como eles banalizavam as vidas que ceifaram: “mas tá bom, tá de boa, mas tem aquela coisa, todo confronto tem alguém morto, eu estou de boa, falei para os caras, pedi desculpa pela cagada de pau, mas acho que não foi cagada de pau não!". A declaração, para Henrique, demonstra a “naturalização da violência letal e a consciência de que perseguições policiais devem resultar em mortes”.
Foi no celular de Leandro Cardoso, réu na Simulacrum, que o relatório encontrou o grupo “Gol Branco”, criado no dia 12 de julho de 2024, seis dias após a morte de Nery e o dia em que eles forjaram o confronto.