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Domingo, 18 de janeiro de 2026

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CASO JOÃO PINTO

Após assassinar pecuarista no Contorno Leste, policial evadiu do local por mal estar e falta de sinal; família contesta versão

Foto: Reprodução

Após assassinar pecuarista no Contorno Leste, policial evadiu do local por mal estar e falta de sinal; família contesta versão
A família de João Antônio Pinto, de 87 anos, assassinado em fevereiro de 2024 durante ação na região do Contorno Leste, em Cuiabá, segue contestando o relatório final da investigação que concluiu o caso como legítima defesa. O disparo foi feito pelo investigador Jeovânio Vidal Gabriel, da Delegacia Especializada de Estelionato e Outras Fraudes.


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A advogada da família, Gabriela Zaque, acredita que o depoimento do policial apresenta contradições e que o inquérito contém lacunas. Um dos pontos questionados é o fato de Jeovânio ter deixado o local logo após constatar que João havia sido atingido, comportamento considerado inadequado em situações de suposta legítima defesa. O Ministério Público Estadual (MPMT) pediu novas diligências no início deste ano, mas o inquérito ainda não foi devolvido concluso pela Polícia Civil.

O caso começou após uma denúncia feita por Elmar Soares Inácio, cunhado de Jeovânio, que afirmou ter sido ameaçado com uma arma de fogo por João Antônio nas proximidades da propriedade rural da vítima. Elmar fotografou a placa do veículo do idoso e enviou a imagem ao policial, que foi até o local acompanhado de outros agentes da Delegacia de Estelionato, em viaturas descaracterizadas.

Em depoimento, Jeovânio declarou que foi até a região para verificar a denúncia e que, ao se aproximar da chácara, foi autorizado por seguranças a entrar. Ele afirmou ter atirado somente após João supostamente sacar e manusear uma arma em sua direção. Após o disparo, segundo o policial, a vítima caiu e teve a arma afastada. Ele deixou o local alegando que precisava buscar sinal de telefone e que não se sentia bem.

Para a advogada Gabriela Zaque, a versão apresentada não se sustenta. Ela pontua que os policiais chegaram à propriedade armados e que renderam os seguranças, impedindo-os de avisar João sobre a presença da equipe — procedimento que, segundo ela, contrariava a rotina de segurança da chácara, conforme confirmado pela filha de João, Gisela Pinto.

Zaque acrescenta que os seguranças foram revistados, tiveram os veículos vasculhados e foram orientados a não se comunicar. Após isso, os policiais seguiram até o portão principal, onde renderam o caseiro Dirley, única testemunha presente no momento da abordagem. O trabalhador, segundo a advogada, foi obrigado a se deitar e permanecer imobilizado por mais de 40 minutos, enquanto João era alvejado.

“Logo após o disparo, Jeovânio deixou o local. Os seguranças disseram que o tempo entre o tiro e a saída do carro em que ele estava não chegou a cinco minutos. É incompatível com a conduta esperada de alguém que alega ter agido em legítima defesa”, alegou Zaque.

A filha da vítima, Gisela Pinto, também contesta o relato do policial. Segundo ela, a área possui boa cobertura de telefonia, o que desmente o argumento de que Jeovânio teria deixado o local por falta de sinal. “Um policial treinado não poderia se ausentar da cena de um disparo fatal. É inexplicável o procedimento adotado, desde a entrada não autorizada até a saída imediata após o tiro”, disse.

A propriedade rural de João é alvo de disputas judiciais e tentativas de invasão, motivo pelo qual a família mantinha vigilância constante e controle de acesso. O local abrigava maquinário, uma pequena oficina e um avião de uso pessoal do idoso, que realizava voos para o Pantanal em épocas de cheia.

A família também questiona o laudo das câmeras de segurança, segundo o qual o sistema não gravava imagens desde janeiro de 2022. Os filhos de João afirmam que os equipamentos estavam ativos e pedem nova perícia no material apreendido pela Politec.

O depoimento do cunhado do policial, autor da denúncia inicial, também é contestado. A defesa da família solicita que o Ministério Público reavalie as provas e adote novas medidas investigativas, especialmente quanto às contradições nos relatos e aos dados de rastreamento dos veículos usados na operação.

O inquérito foi concluído em novembro de 2024 pelo delegado Marlon Conceição Luz, que acatou a versão de Jeovânio e concluiu pela legítima defesa, deixando de indiciá-lo. O delegado também sugeriu o arquivamento do caso.

Segundo o relatório, os policiais se identificaram ao entrar na chácara e João teria reagido ao sacar uma pistola calibre 9mm, momento em que Jeovânio efetuou um único disparo. O Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) foi acionado e reconheceu, em análise preliminar, indícios de legítima defesa.

A família, no entanto, refuta essa conclusão. O caseiro Dirley declarou em depoimento que não viu João sacar a arma, apenas se abaixar ao notar a aproximação dos policiais.

Durante a investigação, foram realizadas buscas domiciliares, quebras de sigilo e análise dos celulares de Jeovânio e de seu cunhado, sem indícios de premeditação. Mesmo assim, segundo a advogada Zaque, “pontas soltas permanecem” e devem ser reexaminadas.

Com a conclusão do inquérito, o delegado encaminhou o caso ao Ministério Público Estadual, com sugestão de arquivamento. Porém, o órgão ministerial não aceitou e, no começo deste ano, mandou o caso de volta à delegacia requisitando novas diligências – o que a família vem aguardando desde então.
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