O Ministério Público do Estado (MPE) concluiu que Nátaly Helen Martins Pereira, bombeira que confessou ter assassinado a adolescente grávida Emelly Azevedo Sena em março, em Cuiabá, agiu sozinha e conseguiu enganar o seu então esposo e familiares sobre uma falsa gravidez. Em despacho assinado na última sexta-feira (11), o promotor Reginaldo Segundo arquivou o inquérito complementar em face de Christian Albino Cebalho de Arruda, companheiro de Nátaly na época dos fatos, Aledson Oliveira da Silva, amigo da família e Cícero Martins Pereira, irmão da ré.
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Por meio da análise dos dados extraídos dos celulares de todos os investigados, incluindo conversas, mensagens, imagens, vídeos, registros de chamadas, agenda e histórico de localização, a investigação concluiu que Nátaly enganou todos eles e foi a única responsável pelo crime bárbaro. Com isso, o promotor também descartou a hipótese de tráfico de crianças com auxílio de Christian, ou que Cícero a tenha ajudado a ocultar o cadáver da adolescente.
Sobre Aledson, foi comprovado que ele apenas auxiliou a família no transporte após a descoberta de inconsistências médicas por parte de Nátaly no hospital Santa Helena. No momento do crime, ele trabalhava como motorista de aplicativo e, portanto, sua participação foi descartada.
O então companheiro da bombeira, Christian de Arruda também foi vítima da farsa que ela elaborou para cometer a execução. No momento dos fatos, ele estava trabalhando em um restaurante, conforme flagrado pela própria polícia. Além disso, durante o período que ela simulou estar grávida, ele foi igualmente enganado acreditando na gestação. Exame feito nas conversas que ele e ela travaram pelo celular concluiu que ele não teve qualquer participação dolosa no crime.
Quanto a Cícero, irmão da autora e proprietário da residência onde foi ocultado o cadáver da vítima, também restou demonstrada a ausência de sua participação nos fatos. Ele trabalhava em uma obra de construção civil no dia dos crimes, possuindo álibi robusto e confirmado. A utilização de sua residência para o assassinato ocorreu de forma clandestina, tendo Nátaly se aproveitado do fato de que a chave do imóvel permanecia em um esconderijo conhecido pela família.
As farsas promovidas pela bombeira também foram comprovadas, além de outras provas, pelos depoimentos de sua mãe, que elucidou o comportamento enganoso dela na época do crime. Conforme a genitora, a bombeira já apresentava histórico de simulações de gravidez mesmo após ter sido submetida à laqueadura, utilizando-se de exames falsificados e evitando ser acompanhada por familiares em consultas médicas, tendo enganado toda a família desta forma.
“O relato materno evidencia que nem mesmo os familiares mais próximos tinham conhecimento das reais intenções criminosas da investigada”, anotou o promotor ao resolver arquivar o inquérito contra os três. Nátaly segue presa enquanto aguarda julgamento.
“As quatro denúncias anônimas registradas junto ao CIOSP foram devidamente apuradas pela autoridade policial. A denúncia nº 2198/2025, que descrevia o modus operandi de atração de gestantes, confirmou o método utilizado por NÁTALY, sem, contudo, implicar os demais investigados. Já a denúncia nº 2199/2025, que sugeria a hipótese de tráfico de bebês envolvendo CHRISTIAN, foi descartada diante da inexistência de indícios que a corroborassem. As demais denúncias também foram averiguadas e não resultaram em qualquer elemento que comprometesse os investigados ora analisados”, concluiu.
O crime
O crime bárbaro foi cometido no dia 12 de março por Nataly, que confessou a execução da adolescente, atraída sob pretexto de receber doações de roupas para sua bebê, já que estava grávida de nove meses.
Já na casa usada pela bombeira para o crime, situada no bairro Jardim Florianópolis, capital, Emelly foi imobilizada e asfixiada, o que também colocou em risco a vida do feto. Com a vítima ainda tendo sinais vitais, a bombeira realizou uma cesárea improvisada, sem qualquer anestesia, para retirar o bebê de seu ventre, o que lhe causou sofrimento intenso.
Após retirar a criança do ventre da vítima e cometer o feminicídio, enterrando o cadáver de Emelly no quintal, Nataly e se apresentou no hospital como se fosse a mãe da criança.
Entretanto, exames realizados pelos médicos do Hospital Santa Helena revelaram que ela não havia dado à luz recentemente. A denunciada teria ainda limpado o local do crime para remover vestígios e utilizado o celular da adolescente para enviar mensagens falsas aos familiares, bem como falsificado um exame de gravidez para simular uma gestação.
Para o promotor, o crime praticado configura feminicídio, pois foi cometido com evidente menosprezo à condição de mulher da vítima. Acrescentou que a mudança interpretativa e o fato de ter tipificado a conduta da denunciada como feminicídio “não altera o brilhante e célere trabalho da Polícia Judiciária Civil, através de seus delegados de polícia, investigadores e escrivães”.
Segundo apurado durante as investigações, Nataly é mãe de três filhos homens e desejava ter uma menina. Como já tinha feito laqueadura, mapeou mulheres grávidas de meninas. Ela manteve contato com a vítima por meio de um grupo de WhatsApp destinado à troca e doação de itens para bebês e atraiu a vítima para o local do crime com o falso pretexto de doar roupas.