Os empresários Julinere Goulart Bastos e Cesar Jorge Secchi, moradores de Primavera do Leste, são o casal preso nesta sexta-feira (9) acusado de ser o mandante do assassinato do advogado Renato Nery, ocorrido em julho do ano passado, em Cuiabá. A prisão foi realizada pela Delegacia Especializada de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP) da Capital, que conduz o inquérito.
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A juíza Edna Coutinho, do Núcleo de Inquéritos Policiais (NIPO), manteve a prisão dos empresários Julinere Goulart Bastos e Cesar Jorge Sechi, de Primavera do Leste, casal acusado de ser o mandante do advogado Renato Nery, ocorrido em julho do ano passado, em Cuiabá. Eles foram detidos no dia 9 de maio pela Delegacia Especializada de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP) da Capital, que conduz o inquérito.
Conforme apurado pelo Olhar Jurídico, em ordem proferida nesta semana, a magistrada decidiu prorrogar a prisão temporária de ambos. O processo segue tramitando sob sigilo.
Cesar e Julinere foram presos em um condomínio de luxo do município na nova etapa da investigação, que é um desdobramento da Operação Ofice Crime – O Elo, deflagrada no dia 17 de abril deste ano. Na ocasião, o casal teve medidas cautelares impostas e passou a usar tornozeleiras eletrônicas por decisão judicial, diante do risco de fuga. Na mesma fase da operação, também foram presos os policiais militares Ícaro Nathan Santos Ferreira e Jackson Pereira Barbosa.
De acordo com as investigações, Julinere e Cesar são apontados como os mandantes do homicídio, motivado por uma disputa de terra de valor milionário. A investigação identificou que o casal atuou por meio de intermediários, os quais ficaram responsáveis por fornecer a arma de fogo utilizada no crime aos executores.
As diligências da DHPP apontam que os envolvidos fazem parte do elo entre os mandantes e os autores do assassinato. A investigação, que está em fase final, reuniu provas técnicas e testemunhais que fortalecem a tese de execução planejada.
Após o cumprimento dos mandados, o casal será encaminhado à audiência de custódia e, posteriormente, à sede da DHPP em Cuiabá.
O caso
Renato Nery, de 72 anos, foi atingido por disparos de arma de fogo no dia 5 de julho de 2023, na frente de seu escritório, em Cuiabá. O advogado chegou a ser socorrido e passou por cirurgia em um hospital particular, mas não resistiu aos ferimentos e morreu horas depois. Desde então, a Polícia Civil realizou diversas diligências técnicas e periciais para elucidar a execução do advogado, resultando no avanço das investigações e nas prisões dos envolvidos.
A disputa judicial por 800 hectares de terras produtivas em Novo São Joaquim, avaliados em mais de R$ 40 milhões, teria sido a motivação para o assassinato.
O casal acusava Nery de falsificar assinaturas para “tomar” a Fazenda Atlântida, obtida pela família Sechi junto à Ary Ferreira de Souza em julho de 1998. Segundo os Sechi, Nery enganou o poder judiciário para se empossar das terras.
“O cultivo da área vinha ocorrendo normalmente até que, por força da reintegração de posse fraudulentamente conseguida pelos réus, foram os herdeiros do comodante Dorvalino Sechi impedidos de explorar a área”, diz trecho da ação que o espólio dos Sechi moveu contra Nery em 2022, visando a declaração de nulidade dos negócios jurídicos que passou a posse da referida fazenda à Nery, bem como a reintegração da posse no imóvel.
De outro lado, Nery também acusava Cesar Sechi e Julinere de falsificarem as escrituras das terras. Em 26 de fevereiro de 2024, quatro meses antes do assassinato, Nery acionou o casal em ação de nulidade de escrituras públicas de compra e venda, acusando o espólio de Dorvalino de falsidade ideológica.
“Trata-se, portanto, de falsidade ideológica, acima demonstrada, pois com base em origem de título transplantado irregular e ilegalmente da Comarca de Cuiabá para a Comarca de Barra do Garças, Primavera do Leste e depois para a Comarca de Novo São Joaquim, com outra localização e outros limites, de onde se desmembrou os títulos falsos causa de pedir da referida da Ação Declaratória”, rebateu. Pouco menos de um mês após o ajuizamento, Nery manifestou a desistência da ação em 5 de março – o que foi deferido pela juíza Tabatha Tosetto, da Vara Única de Novo São Joaquim.
Já na ação de reintegração movida pelos Sechi, depois da disputa intensa travada por décadas na Justiça, as partes assinaram um acordo. O espólio de Durvalino Sechi, então, reconheceu a posse da área à Nery. O acordo foi assinado no dia 20 de setembro de 2024, após a execução do advogado.
Informações apuradas por Olhar Direto apontam que os empresários Julinere e César teriam pago R$ 150 mil pela execução do advogado. O crime está relacionado a uma disputa por dois imóveis, que dividem os 800 hectares, avaliados em mais R$ 30 milhões no interior de Mato Grosso.
Durante o andamento das investigações, o policial militar Heron Teixeira confessou sua participação no homicídio. Ele detalhou que dividiu o dinheiro apenas com Alex Cardoso, que trabalhava como caseiro em uma chácara de sua propriedade. O combinado inicial era de R$ 200 mil, mas apenas parte do montante foi efetivamente paga.
Ainda segundo o militar, o PM Jackson Pereira Barbosa – vizinho de condomínio do casal – teve participação no crime e foi o responsável por cooptar outro policial, Ícaro Nathan Santos Ferreira, integrante da inteligência da Rotam, que conseguiu a arma usada na execução: uma pistola Glock G17 modificada para o modo automático.