O juízo do Núcleo de Inquéritos Policiais (Nipo) ordenou a quebra no sigilo fiscal, bancário e nos celulares do casal de empresários, dos policiais militares e do caseiro envolvidos no assassinato do advogado Renato Nery, executado a tiros em julho de 2024, em Cuiabá.
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Conforme apurado pelo Olhar Jurídico, a ordem proferida nesta quarta-feira (14) atendeu pedido da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), que conduz as investigações e, na semana passada, prendeu a empresária Julinere Goulart Bentos e seu marido, o produtor rural Cesar Sechi, acusados de serem os mandantes do crime. Eles tiveram o sigilo quebrado, bem como os militares envolvidos.
De acordo com as apurações, o policial militar Heron Teixeira foi o intermediário contratado para fazer o “serviço”. Ele conseguiu a arma de fogo usada no assassinato e foi quem repassou a arma para o caseiro da chácara, Alex Queiroz Silva, que pilotou a motocicleta Honda Fan até o local do crime e efetuou os disparos que mataram o advogado.
Segundo o delegado da Polícia Civil, Bruno Abreu, a morte de Nery foi encomendada pelo valor de R$ 200 mil em meio a disputas de terra. Ainda conforme a autoridade policial, o caseiro de Heron, Alex, negou ter sido o responsável por efetuar os tiros.
Heron e Alex foram indiciados pela Polícia Civil nesta semana. Os dois foram indiciados pelo crime de homicídio qualificado pela promessa de recompensa e recurso que impossibilitou a defesa da vítima.
Já Cesar Sechi negou ter sido o mandante. Julinere, que deveria depor nesta semana, retroagiu e desistiu após alegar problemas psicológicos. Apesar da tentativa de Heron em isentar os colegas de farda, a Polícia Civil acredita que há fortes indícios do envolvimento de outros militares tanto na execução quanto nos desdobramentos do crime.
As investigações apontam que os policiais Jackson Pereira Barbosa e Ícaro Nathan Santos Ferreira participaram diretamente da trama. Segundo apurado, Jackson, que mora no mesmo condomínio que o casal— Julinere e César — teria sido o responsável por chamar Ícaro para participar da ação. Ícaro, que atuava no setor de inteligência da Rotam, foi quem providenciou a pistola Glock G17 adaptada para disparos automáticos, utilizada no crime.
Em sua confissão, Heron admitiu que fez a ponte entre os mandantes e o executor, mas tentou minimizar o papel dos colegas. Mesmo assim, a DHPP reuniu provas como interceptações telefônicas, mensagens de celular e movimentações suspeitas que sustentaram o indiciamento de Jackson e Ícaro, além da prisão preventiva de todos os envolvidos.
A disputa judicial por 800 hectares de terras produtivas em Novo São Joaquim, avaliados em mais de R$ 40 milhões, teria sido a motivação para o assassinato do advogado Renato. O casal, preso na última sexta (9), litiga diretamente com Nery há decadas por conta da área.
O casal acusava Nery de falsificar assinaturas para “tomar” a Fazenda Atlântida, obtida pela família Sechi junto à Ary Ferreira de Souza em julho de 1998. Segundo os Sechi, Nery enganou o poder judiciário para se empossar das terras.
“O cultivo da área vinha ocorrendo normalmente até que, por força da reintegração de posse fraudulentamente conseguida pelos réus, foram os herdeiros do comodante Dorvalino Sechi impedidos de explorar a área”, diz trecho da ação que o espólio dos Sechi moveu contra Nery em 2022, visando a declaração de nulidade dos negócios jurídicos que passou a posse da referida fazenda à Nery, bem como a reintegração da posse no imóvel.
De outro lado, Nery também acusava Cesar Sechi e Julinere de falsificarem as escrituras das terras. Em 26 de fevereiro de 2024, quatro meses antes do assassinato, Nery acionou o casal em ação de nulidade de escrituras públicas de compra e venda, acusando o espólio de Dorvalino de falsidade ideológica.
“Trata-se, portanto, de falsidade ideológica, acima demonstrada, pois com base em origem de título transplantado irregular e ilegalmente da Comarca de Cuiabá para a Comarca de Barra do Garças, Primavera do Leste e depois para a Comarca de Novo São Joaquim, com outra localização e outros limites, de onde se desmembrou os títulos falsos causa de pedir da referida da Ação Declaratória”, rebateu. Pouco menos de um mês após o ajuizamento, Nery manifestou a desistência da ação em 5 de março – o que foi deferido pela juíza Tabatha Tosetto, da Vara Única de Novo São Joaquim.
Já na ação de reintegração movida pelos Sechi, depois da disputa intensa travada por décadas na Justiça, as partes assinaram um acordo. O espólio de Durvalino Sechi, então, reconheceu a posse da área à Nery. O acordo foi assinado no dia 20 de setembro de 2024, após a execução do advogado.