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Terça-feira, 05 de julho de 2022

Notícias | Criminal

ATROPELAMENTO NA MIGUEL SUTIL

Testemunha da morte de verdureiro diz que médica apresentava sinais de embriaguez e fazia zigue-zague na pista

Foto: Rogério Florentino / OD / Reprodução

Testemunha da morte de verdureiro diz que médica apresentava sinais de embriaguez e fazia zigue-zague na pista
Foi realizada nesta quinta-feira uma audiência sobre o caso do atropelamento, e morte, do verdureiro Francisco Lúcio Maia pela médica Letícia Bortolini em abril de 2018. Foram ouvidas quatro testemunhas, entre elas Bruno Pereira Lins, que ajudava Francisco no exato momento em que foi atropelado, e seguiu Letícia até o condomínio onde ela mora. Segundo Bruno, a médica estava em alta velocidade e fazia ziguezague na pista. A filha do verdureiro também foi ouvida e disse: “é uma coisa que dói muito na gente até hoje”.
 
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A filha de Francisco, Francimara Lucio da Silva, foi a primeira testemunha ouvida na audiência. Ela relatou que por volta das 19h30 foi informada que seu pai tinha sido vítima de um acidente de trânsito e então foi ao local.
 
“Chegando lá encontrei meu pai abraçado a um tronco de árvore, com a cabeça toda ensanguentada e sem vida [...] me informaram que o atropelador havia fugido, mas que um outro motorista tinha seguido. [...] Depois fomos até a delegacia, e encontrei Letícia, com sinais de embriaguez”
 
Francimara contou que seu pai acordava todos os dias às 3h para ir à feira, criou quatro filhos com este trabalho na banquinha de verdura, que manteve por 17 anos. Segundo ela, Francisco era muito conhecido por todos na região.
 
“Um caso que marcou muito a população da região. Todo mundo chega na banquinha e pergunta como está o caso. [...] É uma coisa que dói muito na gente até hoje [...] hoje quando eu saí, meu sobrinho falou ‘tia deixa eu ir na audiência da mulher que matou meu vô’... então é uma coisa que me dói muito. Chegava aniversário, meu pai falava ‘filha, não consegui comprar presente, toma uma folha de alface’, falava brincando, ele era uma pessoa bem família, animado”.
 
Ela disse que quando chegou na delegacia viu Letícia. Ela procurou pela médica nas redes sociais e encontrou uma foto dela segurando um copo de cerveja, em frente ao barril, em uma festa. A foto foi apagada.
 
A segunda testemunha ouvida foi o marido de Letícia, o médico Aritony de Alencar Menezes. Ele relatou que a médica não queria ir ao evento, cujos ingressos já estavam comprados, pois estava se sentindo mal. Aritony insistiu e Letícia acabou aceitando. Ele disse que o objetivo da festa era a degustação de carnes, o foco não eram as bebidas alcoólicas.
 
O casal deixou o filho na casa do pai de Aritony e chegaram ao evento por volta das 14h30. Ele ainda disse que durante todo o trajeto, da festa até sua casa, ele dormiu no carro, não percebeu a colisão. O médico explicou a ocasião em que foi tirada a foto com a cerveja. 
 
“[Uma marca] estava fazendo o lançamento da cerveja, para se conseguir esta cerveja tinha que ficar em uma fila. Quando chegasse próximo, duas moças davam um copo, pediam para postar uma foto e mostrar a foto. Somente após isso ela servia a cerveja, nisso pegamos a cerveja e continuamos. Por volta das 19h30 depois de um show acabou, ela entrou no carro, eu fui no carona, e demorou bastante para sair, por todos saíram ao mesmo tempo, nisso eu já dormi, acordei em casa”.
 
Letícia o teria acordado para mostrar que o carro estava danificado. Segundo ele, ela disse que acreditava ter colidido com uma placa. O médico disse que o carro tem Sistema Anticolisão, e os airbags não acionaram. Ele chamou seu pai, mas logo em seguida a Polícia Militar chegou ao local e os encaminhou à delegacia, informando-os sobre o estado da vítima.
 
“Ela se desesperou, começou a chorar, caiu no chão, não acreditava porque não tinha visto nada, quando a gente desceu que ela foi me mostrar. Quando perguntei para ao policial foi que ele falou que uma pessoa tinha morrido, a Letícia só chorava, não acreditava que teríamos que ir para uma delegacia. [...] emagreceu 10kg em 20 dias, não dormia, tomava remédio controlado, não conseguia trabalhar”.
 
Aritony garantiu que Letícia não bebeu durante a festa, que a cerveja que ela pegou, que aparece na foto, era para ele, já que a fila para pegar a bebida era longa. Na delegacia ele disse que foi separado da esposa, e que ficou do lado de fora com seu pai. Familiares de Francisco teriam chegado lá e teriam hostilizado o médico, que então decidiu ir embora, sem prestar depoimento. Ele disse que “ninguém falou que era para ficar”.
 
“Eu me importo com vidas, sou médico, salvo vidas, trabalho todos os dias para salvar pessoas, trabalho com câncer, para dar dignidade e vida para os pacientes”, disse Aritony.
 
Em seguida foi ouvido o soldado da Polícia Militar Rafael de Souza. Ele relatou que quando chegou ao local do acidente o casal não estava mais lá, no entanto, uma testemunha havia seguido o carro e foi até um condomínio. Ele disse que acionou apoio de outra equipe, sendo esta a que foi ao condomínio e conduziu Letícia à delegacia.
 
O militar, que depois foi à delegacia, afirmou que o carro da médica estava bastante danificado, o que apontava que a colisão foi forte, e que ela apresentava sinais de embriaguez, como odor etílico, vermelhidão nos olhos, fala desconexa e ficava escorada na parede. Ela se negou a realizar teste do bafômetro. O policial ainda disse que o local do acidente não tinha sinalização e não era próprio para travessia.
 
A última testemunha ouvida foi Bruno Pereira Lins. Ele ajudava o verdureiro no exato momento da colisão e seguiu Letícia até o condomínio onde ela mora. Bruno relatou que passava pela Avenida Miguel Sutil e viu Francisco no canteiro, tentando atravessar o carrinho de verduras. Ele então desceu para ajudá-lo.
 
Bruno contou que Francisco estava em cima do canteiro e ele foi tentar ajudar, pelo meio-fio. Em determinado momento, ele disse para trocar de posição com Francisco, pois assim conseguiria retirar o carrinho do meio-fio. Foi então que, ao ir para a pista, Francisco foi atropelado.
 
“Eu saí da parte de cima, quando fui virar de costa, escutei um barulho feio mesmo, aí que olhei e vi ele na árvore, vi o carro passando. [...] Foi muito rápido, questão de segundos, quando olhei para trás ele não estava mais [...] Teve pessoas que pararam para ajudar, teve uns que passaram devagar, mas ela seguiu caminho normal, não freou nada [...] Por questão de segundos, poderia ser eu”, disse.
 
Bruno então decidiu seguir Letícia, já que ela não parou para prestar socorro. Ele foi encontrá-la já próximo ao Centro de Eventos do Pantanal. Ele foi seguindo, acionou o 190, e viu ela entrando no condomínio. Ele repassou às informações à polícia.
 
A testemunha disse que desde criança via Francisco trabalhando, que o verdureiro era muito conhecido na região, e por isso decidiu ir atrás do carro que o atropelou. Ele disse que o veículo estava em alta velocidade no momento da colisão, e que o barulho foi alto. Bruno também afirmou que viu Letícia fazendo ziguezague na pista.
 
“Na hora que eu estava acompanhando, quando a pessoa está alcoolizada ela não se sente muito legal, ela começa a trocar de pista, e estava desse jeito o carro dela [...] teve uma hora que eu encostei do lado e deu para ver que a outra pessoa não estava dormindo, dava para ver [...] Eu podia ter fechado o carro dela e falado ‘olha, você atropelou uma pessoa lá atrás’, mas tive medo de estarem armados”.
 
Letícia não foi ouvida nesta quinta-feira (2). Após Bruno ser ouvido o juiz Flávio Miraglia encerrou a audiência e remarcou uma nova, que deve ocorrer em fevereiro de 2022.
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